Publicado por: Pastor Elvis | 25 novembro, 2008

MINISTÉRIO PASTORCÊNTRICO

25/11 a 01/12/08 – Post 05

“Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas” At 6.2

Mais uma vez, olá queridas irmãs e queridos irmãos.

O tema desta semana é o mais polêmico já tratado até agora. Peço que Deus Espírito Santo esteja nos guiando nesta análise e debate.

Desde o início do cristianismo haviam lideranças de ordens diferentes dentro da Igreja. Como vemos no versículo acima não era “razoável” centralizar todo o trabalho nos pastores. Hoje em dia, esta centralização continua não sendo razoável. A centralização não é razoável basicamente por dois motivos: 1) Limita o desenvolvimento do trabalho a capacidade da pessoa no qual o trabalho está centralizado; 2) Faz com que muitos talentos sejam enterrados (apesar da alusão a parábola de Jesus, me refiro aqui a dons e a não a fé).

Na semana passada conversamos sobre a autoridade dada por Jesus a Igreja (autoridade para perdoar pecados, pregar a Palavra, Batizar e administrar a Santa Ceia). Entretanto a Bíblia nos mostra de forma muito clara que Deus ordenou o ministério pastoral e deseja que as congregações chamem pastores. As funções relativas ao ministério também foram definidas pelo próprio Deus. O pastor é chamado pela congregação para fazer publicamente aquilo que cada membro recebeu individualmente. O pastor é, portanto, a pessoa responsável pelo perdão público de pecados, pela pregação pública da Palavra de Deus, pela administração pública do Batismo e da Santa Ceia. Por isto se espera que:

(Tt 1.9-11)
– O pastor maneje bem a Palavra;

(At 20.28)
– O pastor tenha cuidado de si e dos cristãos;
– Se entenda o chamado como divino (pois é o Espírito Santo que o constitui bispo);
– Se entenda que a Igreja é de Deus e não do pastor (pois foi Jesus quem a comprou e não o pastor);

(At 20.31)
– O pastor admoeste com a Palavra de Deus;

(Hb 13.17)
– Se preste obediência ao pastor (algo que em última análise é obediência à Palavra de Deus, pois o pastor só pode usar esta autoridade para pregar a Palavra de Deus);
– Os pastores cuidem dos membros, pois irão prestar contas a Deus deste cuidado;
– Haja cooperação (obediência à Palavra) para que os pastores façam o trabalho com alegria.

O pastor é um supervisor do trabalho da congregação, no sentido de cuidar para que a Palavra de Deus seja observada. A liderança do pastor deve seguir o exemplo de Cristo – ou seja, uma liderança de serviço e doação. Em resumo, o pastor é aquele que serve e ao mesmo tempo possui autoridade, “quando” anuncia a Palavra de Deus (autoridade que não é dele, mas da própria Palavra. Autoridade que se concede a ele, por causa da Palavra).

O ministério verdadeiro é o ministério Cristocêntrico. Jesus é o cabeça e nós somos membros… e somos muitos membros, com funções diferentes… e todas são importantes.

E agora vem a grande pergunta:

Por que existem congregações onde o trabalho é quase todo centralizado no pastor?

As causas são inúmeras… mas, ao meu ver, a solução será sempre a mesma:

Precisamos estudar cada vez mais a Palavra de Deus, para que o Espírito Santo nos guie segundo a Sua vontade.

Vejamos, a fim de debate e reflexão, algumas razões para que haja esta centralização.

Destaco dois casos: 1) Pela congregação; e 2) Pelo pastor.

1) Pela congregação:

Durante muito tempo, no passado, algumas congregações receberam um atendimento muito superficial, pela falta de pastores. Em função disto não se conseguiu criar uma consciência do Ofício Sacerdotal de Todos os Crentes. Os cristãos, de algumas congregações, se acostumaram com a idéia do pastor que faz quase tudo.

2) Pelo pastor:

Sem julgar as decisões tomadas escrevo abaixo o que acredito serem as causas mais comuns para que isto aconteça:

2.1) Tentativa de apaziguar os ânimos
O pastor percebe que os membros desenvolveram grande animosidade entre eles e estão formando grupos dispostos a competir entre si. Neste caso o pastor opta por, em um primeiro momento, centralizar o trabalho em si enquanto, pela Palavra, trabalha a questão da unidade orgânica da Igreja, para então começar novamente a redistribuição de tarefas. Seria uma espécie de medida provisória.

2.2) Tentativa de proteção
O pastor tem medo que a iniciativa de algum membro seja muito mal recebida pelos outros que poderão criticar veementemente a liderança deste membro. Por isto o pastor teme perder esta nova liderança ou até mesmo este membro. O pastor decide desencorajar o membro.

2.3) Moldado pelas experiências
O pastor teve experiências no passado que fizeram com que ele desacreditasse na eficiência do trabalho descentralizado. Excesso de tempo gasto na tentativa frustrada de capacitar lideranças, falta de sucesso na tentativa de envolvimento de membros, problemas sérios com liderança leiga no passado, entre outras experiências anteriores podem fazer com que o pastor deixe de acreditar que é capaz de treinar e capacitar lideranças para o trabalho.

 

A palavra está com vocês.
Um grande abraço,
PE


Responses

  1. Nas ultimas linhas deste post me lembrei de um artigo que li do Jim Collins sobre liderança, que classifica o líder em 5 níveis. Sendo que o “líder nível 5” é o que consegue, dentre outras coisas, formar sucessores. Enquanto que no nível 3 é um “gerente competente”.
    Ao estudar liderança li vários artigos e livros publicados por pastores de outras denominações que tem como uma das principais preocupações desenvolver a liderança nas suas congregações.

    Infelizmente o tempo do pastor é gasto em “fazer” as coisas, não em preparar as pessoas para fazerem elas.
    Basta pensarmos no exemplo das visitas, os membros desejam que o pastor as venha visitar em suas casa, não querem que o pastor prepare outras pessoas para que possam visitar todos os irmãos!

    Estamos dentro de um modelo no qual o trabalho sempre será centralizado no pastor. Precisamos quebrar este paradigma e voltar para a prática proposta pela bíblia. Como podemos fazer isso? Alguém tem alguma sugestão?

    Em Cristo,

  2. Na “Confissão de Augsburgo”, no artigo XXVIII – DO PODER DOS BISPOS, no último parágrafo está colocado que “São Pedro proíbe aos bispos o domínio, como se tivessem o poder de coagir as igrejas ao que eles quisessem. Agora não se trata de como privar os bispos de seu poder;”

    Quando lemos as nossas confissões, as quais todos subscrevemos, percebe-se uma liberdade e obediência, amor e temor que me parece que perdemos ou, pelo menos, distorcemos hoje em diversos aspectos. Em parte a distorção parece que aconteceu quando buscamos “mecanismos” (humanos, na minha opinião) para manter a unidade dentro da igreja… com isso, encerramos o Evangelho dentro de alguns parâmetros e fechamos a forma de se escolher autoridades (aqueles que servem) dentro de parâmetros muito fechados. Por exemplo, somente aqueles que passaram pelo seminário podem ser escolhidos e chamados (isso para mim denota uma forma de manter certo cuidado e unidade em detrimento da liberdade das congregações).

    Mesmo o texto escolhido pelo pastor Elvis, coloca os apóstolos entre a pregação da Palavra e a administração diaconal das mesas… que mesas? De um banquete qualquer?

    Onde está essa liberdade e a autoridade da igreja local de escolher quem ela achar…
    … restringimos com nossos parâmetros de “unidade”, o chamado para somente aqueles que foram preparados pelo seminário, mesmo para coisas e tarefas mais simples como servir as mesas.

    Temos medo…
    … se não passou pelo seminário, não pode.
    Isso para mim não é apenas zelo pela unidade… é também medo.

    Eu entendo todas as “desculpas” usadas hoje para justificar e explicar as dificuldades de se desafazer esse nó do pastorcentrismo, seja ele fenômeno das congregações ou dos pastores, ou ambos. Aliás, geralmente, me parece que o pastorcentrismo das congregações alimenta o pastorcentrismo dos pastores e vice-versa.

    A pergunta então passa a ser a que fez o Joso:
    Como podemos quebrar esse modelo pernicioso e problemático para o sacerdócio real que sufoca, limita e enterra talentos?

    Minha sugestão passa por uma palavra divida em dois tipos de ações simultâneas: formação.
    FORMA + AÇÃO.

    1. FORMA: é o ensino da Palavra e da liberdade que temos como congregação, da autoridade dada a todos os crentes para servir e chamar os mais variados e diversos servos, para a pregação, para as mesas, para a diaconia em geral. Tudo começa no discipulado, no ensinar a guardar;

    2. AÇÃO: as coisas precisam sair do ensino para a prática de forma relativamente concomitante. Pregamos liberdade e diversidade nos serviço e no chamado, então vamos praticar liberdade no serviço e no chamado. Ensinamos para por em prática… para disseminar a Palavra com palavras e ações.

    Essa é a base da minha sugestão… alguém tem alguma outra?

    .em Jesus.

  3. O professor Donaldo Shuller, quando o entrevistei em 2006 em nome da Comissão de Liderança da JELB, respondeu de forma bem interessante algumas perguntas relacionadas com o tema em questão. Pode parecer um pouco longo, mas são reflexões que valem a pena ler, vejam…:

    “1. A igreja necessariamente possui uma organização social, por esse motivo precisa de lideranças em diversas áreas de sua organização, caso contrário seriam necessários apenas pastores. O que acha disso?

    Bem, a idéia fundamental do luteranismo é o sacerdócio universal. Então todos somos sacerdotes e ninguém está excluído. A igreja é social pela sua própria constituição, porque ela forma um grupo. E Cristo dizia onde dois ou três estão reunidos em meu nome estou no meio deles. Então a prática do cristianismo se faz em grupo, e toda atenção está voltada para o grupo. Quer dizer a solidariedade que se tem pelo grupo, o interesse pelo grupo, amar o próximo como a si mesmo. Então o interesse que temos pela nossa própria preservação deve se refletir sobre preservação dos demais e, talvez, num período em que as relações humanas estão prejudicadas, em que nós estamos num processo de individualização, criar condições para que se possa conviver. E um conviver que seja um benefício para a própria pessoa. Então a convivência deveria ter um sentido de humanização – e o cristianismo nesse sentido é de humanização, é de viver a vida integralmente – então deve se tirar toda idéia de controle, uma normatividade, para que o homem, tocado por Deus, se sinta criativo, se sinta produtivo, se sinta na sua inteira realização humana, de modo que o cristianismo pode contribuir para que o homem em sociedade se sinta pleno, se sinta realizado, se sinta com objetivos de vida e tenha coisas para fazer dentro da comunidade em que ele está.

    2. Nesse sentido então, quais poderiam ser as características de um líder bem sucedido?

    Donaldo: Bom, o líder dentro dessa concepção deveria ser um líder que cria líderes, para que todos sejam responsáveis. Então deve se inibir a esperança de uma liderança que deixa pessoas excluídas. Quer dizer que então o líder deve formar líderes. Como é que ele fará isso? Distribuindo as responsabilidades, permitindo que as pessoas se manifestem, e se manifestem dentro das suas perspectivas nas quais elas estão. Até o momento em que se cria uma situação em que você não tem mais diferença entre o líder e aqueles que pertencem ao grupo. Por isso mesmo é altamente indicativo que essa liderança seja uma liderança que circule, e todos aqueles que participam do grupo assumam posições de responsabilidade. No momento em que todas as pessoas se sentem em situação de responsabilidade você terá uma participação espontânea do grupo.

    3. Essa descrição dessas características então, me parece bastante distante da realidade que nós temos hoje em muitas congregações, as coisas são centradas em poucas pessoas, os líderes e a congregação são bastante “pastorcêntricos”. Às vezes os próprios pastores o são e isso se retro-alimenta. Considerando essas colocações, você diria que essas características têm se alterado significativamente nos últimos 10 ou 20 anos, elas estão andando na direção do sacerdócio universal?

    Donaldo: Agora veja o seguinte, isso significa retornar às origens do luteranismo, quer dizer que o sacerdócio universal é uma posição fundamental no luteranismo. Quer dizer que se nós não o praticamos nós nos desviamos do luteranismo, quer dizer que nosso contato é direto com Deus. As comunidades luteranas foram criadas para exercerem uma posição crítica, uma posição responsável, por isso o reformador colocou uma Bíblia na mão de todos, e o que se observa é: há uma marcha para nós nos reencontrarmos com as nossas origens se a história nos levou no caminho contrário.”

    .abraços.

  4. Olá pessoal,

    Muito interessantes os comentários e a reflexão que é proposta com eles, gostei bastante.

    Gostaria de perguntar algo relacionado a uma das reflexões do Dr. Donaldo – sobre liderança rotativa.

    Acredito também que experiências em cargos de liderança desenvolvem maior percepção e responsabilidade e que, por isto, uma liderança rotativa resultaria, em médio e longo prazo, em participantes mais conscientes e responsáveis pelos interesses do grupo.

    Para mim é evidente que nem todas as pessoas receberam de Deus (pelo menos até agora não receberam) os dons necessários para assumirem determinados cargos de liderança, mas também é evidente que muitos receberam dons e mesmo assim não estão envolvidos (por falta de interesse ou oportunidade).

    Agora vem a minha pergunta… Rahel, você que entrevistou o Dr. Donaldo, o comentário dele foi relacionado a liderança de uma forma geral… ou ele deu a entender que seria importante uma rotatividade na função de pastor entre os membros?

    Abraços,
    PE

  5. Olá pastor Elvis,
    e amigos,

    Bem… eu fiz umas 10 perguntas programadas e umas 20 “improvisadas” digamos assim. Já faz algum tempo, mas pelo que lembro e pelo que eu diria que podemos interpretar das respostas colocadas, o professor Donaldo não parece ter se referido a uma rotatividade na função do pastor entre os membros.

    Agora, vejo que temos pelo menos DOIS entendimentos de rotatividade aqui:
    – o entendimento que “costumamos” praticar;
    – e o entendimento que o professor Donaldo está colocando.

    Em geral, eu vejo a liderança praticando uma rotatividade cômoda, ou seja, escolhem-se geralmente entre os mesmos líderes para que esses se revesem nas atividades, no controle, ou nas decisões, enquanto o restante da congregação se acomoda com os “serviços” oferecidos. Em maior ou menor grau, é o que eu tenho visto como modelo na IELB, com alguns poucos que conseguem fugir bastante disso.

    Nesse modelo, a liderança tradicional só é substituída quando decide mudar de cidade, congregação, país… ou quando falecem mesmo.

    Agora, o professor Donaldo, está falando de líderes que formam líderes, em um processo constante… onde a meta é que todos assumam responsabilidades. É possível isso? Ou vamos dizer que isso é utópico?

    Vejo que se for uma utopia, ainda assim, não podemos deixar de realizar isso, pois é para isso que fomos chamados: ir por todo mundo e discipular, fazer de todos líderes-em-uma-missão – que, por sua vez, é discipular também.

    Uma outra pergunta então surge em relação a sua colocação. Se nem todos receberam o dom de discipular, como podemo ter recebido todos essa missão de Jesus? Ou ela só valeu para os apóstolos?

    Na minha opinião, um dos problemas é que o ciclo de formação continuada e nas mãos de todos é quebrado de diversas formas e por diversos comportamentos, eis alguns deles:

    – instrução de confirmandos assumida não mais pelos pais e somente pelos pastores, em geral. A igreja assumiu a responsabilidade que Lutero entendia como responsabilidade dos pais. Uma sugestão para recuperar isso? O pastor dá “aulas” de instrução para os pais que por sua vez devem instruir seus filhos em casa. Ao mesmo tempo, e no mesmo grupo, envolve jovens que também farão parte da cadeia de monitores e professores de instrução, quem sabe uma vez a cada dois meses em um intensivo com retiro e diversão também;

    – estudos bíblicos que só funcionam com o pastor presente. Como quebrar o ciclo? Com mais ensino e pregação, para que os leigos se envolvam e compreendam que isso também é função deles;

    – visitas de enfermos e de “ouvidoria” que somente o pastor pode fazer (seja na cabeça dos membros seja por definição do próprio pastor). Como quebrar? Aqui vejo um caso especial em que é mais complicado o pastor simplesmente deixar de lado, afinal, quantos enfermos existem na congregação que impossibilita o pastor de visitar a todos? Então é o caso de se criar um grupo no qual o pastor também pode estar incluído ou que também visitará o enfermo, o enlutado, o aprisionado, o que precisa ser “ouvido”. Ouvidoria na verdade imagino que também deva ser um serviço de leigos que podem também ser preparados pelo pastor.

    Agora, vamos para por aqui e contar quantos grupos diferentes de leigos o pastor poderia ser responsável por preparar somente nesses modelos citados. E vamos avaliar e pensar rapidamente quantas pessoas a mais seriam atingidas com esse modelo de ensino em que o pastor prepara os grupos de ensinadores.

    E nem falamos nas lideranças de música, teatro, recepção, missão e evangelismo, ação social… todos grupos tão essenciais para o chamado e a vida da igreja quanto os já citados.

    Enfim… nem todas as congregações podem ter tudo isso, pois não haveria nem recursos humanos. Mas que tal começar com alguns?

    Seguimos conversando…

    .el.


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