Publicado por: Daniela | 1 maio, 2009

Entrevista comigo mesmo

Escrito por: Rahel Victor Lehenbauer… Ele mesmo se apresenta a seguir…

           Ao ser contactado pela Daniela para escrever no “Interpreta JELB” sugeri a ela, como coordenadora do “Interpreta JELB”, organizar uma entrevista com seus convidados, individual ou coletivamente, sobre teatro e seus mais variados aspectos. Como não tenho esperança de ser entrevistado tão cedo, nem por ela nem pela David Letterman, ainda enquanto escrevia anunciei que faria uma entrevista comigo mesmo sobre o assunto. Abaixo algumas perguntas e minhas tentativas de respondê-las. Quem sabe serve como ponto de partida para outros assuntos.

Pergunta: Você é pouco conhecido na JELB, mas vive escrevendo em blogs cristãos ligados a ela, escrevia exageradamente nas comunidades do orkut, você incomoda demais o povo eleito para ser CG-JELB, então, por favor, se apresente, identifique-se para que as pessoas saibam quem é você?

Resposta: Meu nome é Rahel Victor Lehenbauer (pseudônimo “el Rah”), cristão-luterano e arquiteto. Eu namoro a Carol Strelow, advogada (com “D” mudo e não como todos gostam de falar “aDEvogada”), também cristã-luterana e coordenadora do fome29 – que ajudo também fingindo ser um dos coordenadores. Eu realmente escrevo bastante e me meto em todo tipo de assunto, mesmo aqueles dos quais não entendo nada. Muita gente cobra, por causa das minhas opiniões, que eu concorra à cargos na JELB ou mesmo em outros lugares, mas eu nunca fui eleito para coisa alguma; também nunca concorri a nada.

Pergunta: Então além de nunca ter sido eleito para nada na JELB – o que parece significar que você não se interessa – porque você espera ser ouvido e ter suas idéias levadas em consideração?

Resposta: Eu realmente sou um chato, mas em geral, em minha defesa, eu digo só escrevo porque quero compartilhar idéias, opiniões e espero de alguma forma contribuir com uma criatividade coletiva para o crescimento da igreja. Criatividade é o que eu mais cobro de mim mesmo, e sem querer acabo cobrando do restante de nossas lideranças. Criatividade para mim é olhar de frente um problema e resolvê-lo, não de uma forma, mas de diversas formas simultaneamente ou não. Criatividade é liderar porque envolve contribuir para soluções. Muitas vezes, solucionar coisas significa antes, demonstrar que existe um problema bem debaixo nos nossos olhos e narizes. E nem todos tem o mesmo olfato ou o mesmo ponto de vista que eu tenho, aí tudo que posso fazer é opinar e respeitar as diferenças.

Pergunta: Certo. Mas me diga o que isso tudo tem a ver com teatro, teatro cristão, e o “Interpreta JELB”?

Resposta: Teatro cristão é apenas um daqueles assuntos que mencionei dos quais não entendo nada e mesmo assim gosto de falar a respeito e opinar. Falo dessa forma, não por falsa humildade ou mera ironia, pois quem me conhece a já me viu interpretando sabe que gosto de teatro, e muitas dessas pessoas confundem essa paixão que tenho com profissionalismo. Não sou nem um bom amador no que se refere ao teatro. Mas tenho uma vivência e uma experiência prática que me permite opinar do ponto de vista de muitos que na igreja fazem teatro como eu: simplesmente porque gostam, e sabem alguma coisa por terem colocado a mão na massa, lendo um livro e outro, trocando idéias com outras pessoas, enfim, é um conhecimento da prática e bagagem de vida.

Pergunta: Você tem 33 anos e acha que tem bagagem de vida?

Resposta: Bem, se você tivesse 89 anos e estivesse sendo entrevistado por alguém com 92 anos e meio, poderia ouvir a mesma pergunta e não poderia dar a mesma resposta que estou dando.

Pergunta: ãhmmm

Resposta: Pois é, quem mandou fazer pergunta imbecil.

Pergunta: Perdão. Vamos voltar ao teatro então?

Resposta: Claro: o teatro cristão na JELB volta e meia passa por umas opiniões de pouco liberdade. De um lado tem um povo que estudou teatro, que escreve muito bem, que participa de grupos seculares de teatro ou mesmo grupos amadores de nível profissional em concursos (e ganhando); e do outro, gente como eu que sabe pouco e acha que tem “bagagem de vida”. Quando gente desses dois grupos resolvem conversar sobre teatro na JELB a liberdade acaba. Acaba porque os que são bons acham que o problema do teatro é que os outros são ruins e precisam aprender a ser profissionais. E os amadores como eu ficam se sentindo como quem deveria ficar quieto em um canto e deixar o teatro para quem estudou teatro.

Pergunta: E como se resolve isso?

Resposta: Não sei. Mas acho que tudo começa com respeito. Eu defendo que precisamos sempre lutar pela profissionalização de todas as áreas na igreja. O teatro não está de fora disso. Mas eu prefiro que esse movimento seja mais natural e, de preferência, sem recriminação. Um profissional pode ajudar um grupo de interessados dentro da UJ a melhorar suas atuações amadoras. Um profissional pode dar algumas dicas de texto, de roteiro, de marcação, de empostação de voz, pode trazer Stanislavski para o grupo entre outras técnicas e abordagens. Do outro lado, os amadores podem seguir fazendo um teatro talvez mais palpável dentro da JELB de forma que encante e ao mesmo tempo passe uma sensação para alguns do tipo: “eu acho que eu conseguiria fazer isso”. O teatro amador assusta menos os iniciantes, pois eles se sentem mais nivelados. Mas podem e devem sempre se sentir desafiados.

Pergunta: Qual o principal desafio para o teatro na JELB hoje?

Resposta: Eu acho que o desafio de hoje é o mesmo de sempre: entreter. Teatro, eu defendo, é entretenimento. Pouca gente vai ao teatro ou ao cinema para aprender sobre Jesus, ou que seja, aprender, ouvir uma bela mensagem. As pessoas vão ao cinema, como também ao teatro, buscando se entreter: alguns preferem terror, outros dramas, outros gostam de aventuras, alguns comédias. A igreja precisa aprender a pensar o texto do teatro, a interpretação do texto, e tudo o que envolve a produção com essa característica de entretenimento. É verdade que tem filme e peças seculares cujo objetivo é realmente apenas passar o tempo. Mas não é disso que eu estou falando. Entreter é um meio. É o meio… através do qual nós comunicamos a mensagem com mais facilidade. Se uma pessoa senta para ver uma peça, mas não se vê entretida, ela quer fugir do teatro o quanto antes, começa a pensar em outras coisas, e a mensagem não a atinge. Por outro lado, se ela está entretida, a peça prende, e o texto comunica através dos atores, das figuras visuais, da música, do cenário… e tudo fica fabuloso o suficiente para que haja conexão com o espectador.

Pergunta: “Fabuloso” não é uma expressão muito heterossexual, é?

Resposta: É verdade. Mas não falei com tanta pompa assim. A ideia que estou expressando aqui está ligada com a fábula, com o aquilo que gera encantamento infantil nas pessoas – levando aquelas sensações que são puras como aquela criança que vê uma corda no chão a imagina um cobra, ou junta duas almofadas e faz uma cabana. Quando conseguimos levar as pessoas a esse tipo de encantamento, estaremos entretendo e abrindo as portas para a mensagem.

Pergunta: Que mensagem é essa?

Resposta: É claro que não é qualquer mensagem, pois estamos tratando de teatro cristão e não apenas de um grupo de teatro formado por cristãos, ou ainda um grupo secular. Mas eu não vejo nisso uma limitação tão grande quanto alguns propõe. Há quem considere que teatro para ser cristão precisa ter uma mensagem clara a respeito de Cristo em algum momento ao menos. Eu não penso assim. Acho que podemos falar de temas sociais, por exemplo, sem mencionar uma vez sequer Jesus como nosso salvador durante a peça, e simplesmente usar o teatro como ferramenta de transformação social, sem perder o caráter cristão.

Pergunta: Como assim?

Resposta: Nós somos chamados, evidentemente, para pregar o evangelho. Há uma frase repetida pelo pastor Martinho, do Projeto Macedônia, cuja autoria eu não me recordo, mas ela diz assim: devemos pregar o evangelho todo dia, e de vez em quando, até mesmo com palavras. O teatro pode ser feito de palavras claras, contendo a mensagem literal de salvação em Cristo, como pode ser feito de palavras não tão claras ou mesmo gestos que preguem o evangelho. Nesse segundo caso, quando falo do teatro cristão abordando temas sociais, pode ser simplesmente com o objetivo de demonstrar amor pelo nosso próximo: como dar uma moeda na esquina (algo que alguns hoje não consideram mais atitude de amor – eu discordo), como dar um pedaço de pão, cuidar do enfermo sem mencionar a Cristo, pois muitas vezes, por mais que nós tenhamos aquela vontade latente de falar dele, antes precisamos encher a barriga, tratar a ferida, estender a mão, mostrando Cristo em nós, nas nossas atitudes.

Pergunta: Mas isso não deveria ser chamado de teatro social?

Resposta: Não. O teatro cristão, mesmo quando aborda um tema social, tem algo a mais: uma ética diferente, uma abordagem diferente do assunto, e mesmo quando fica muito parecido ou até mesmo igual ao teatro social secular, há diferença, pois o poder de Deus está agindo através do Espírito Santo naqueles atores para que eles façam aquela obra social com amor ao próximo e por causa da fé que há em cada um deles, e não por uma vontade de mostrar que são boas pessoas para o mundo e que se preocupam. O cristão não precisa mostrar que é bom. Nós somos maus por natureza, e quando mostramos o que temos de bom estamos mostrando e revelando Deus em nós. Amamos porque ele nos amou primeiro – não dizemos isso sempre?

Pergunta: Não sei. Mas quem pergunta aqui sou eu.

Resposta: Perdão. Pode perguntar então.

Pergunta: Me dê um exemplo desse teatro cristão com tema social.

Resposta: Me ocorre que uma UJ, por exemplo, ao visitar um asilo, pode detectar muitas pessoas abandonadas pelos seus netos, pelas suas famílias, mal cuidados, e bastante depressivos. O grupo de teatro dessa UJ, depois dessa visita, pode receber essas informações ou esse quadro e escrever uma peça sobre a relação entre um avô e sua netinha e netinho, seus filhos, sem colocar a mensagem da salvação lá no meio. a peça pode tratar do abandono e da realidade deles, mas pode demonstrar um neto com atitudes diferentes, pode demonstrar um enfermeiro diferente, atencioso, pessoas mais reais cativam mais o público. Nossas peças chegam a ser tão artificiais que apresentam muitas vezes o mesmo Jesus do “evangelho da prosperidade”, ou seja, quando o protagonista conhece a mensagem da salvação todos os seus problemas acabam – o jovem drogado fica curado, o mendigo ganha um emprego, o homossexual fica heterossexual -, tudo se resolve, e isso não tem nada a ver com a nossa teologia sobre a salvação.

Pergunta: Você tocou num ponto complicado: o jovem ator ou escritor precisa entender de teologia para fazer teatro cristão?
 
Resposta: Sim. Mas teologia principalmente no sentido de conhecer a Deus, conhecer a sua Palavra. Uma outra grande diferença entre os grupos cristãos nas mais diversas áreas é justamente essa: a Palavra permeia toda relação do grupo. Eu já participei de diversos grupos em todo tipo de área na igreja como professores de escola dominical, grupos de música, grupos vocais, de teatro, de organização de eventos, enfim, e muitos se perdem nisso: uma vez que as pessoas se reúnem para organizar uma atividade elas deixam de estudar a Palavra de Deus para crescer objetivamente.

Pergunta: Como assim crescer objetivamente?

Resposta: O que acontece é que esses grupos acabam fazendo devoções do castelo forte ou algumas devoções preparadas pelo pastor ou pelo líder, e quando muito oram no começo e no final das reuniões. Mas se esquecem de se reunir para estudar a Palavra de Deus com objetivo de evoluir o seu conhecimento também no sentido de aplicar mais objetivamente ao que planejam como, por exemplo, quando precisamos estudar um tema específico que será abordado na próxima peça. O que a Palavra de Deus tem a nos ensinar sobre agir em relação aos idosos? O que temos para aprender em termos de ação social para planejar peças cristãs de cunho social? Crescer objetivamente tem relação com o estudo de temas específicos ao invés de simplesmente fazer uma devoção escolhida por sorteio ou porque alguém do grupo achou bonita a história usada no exemplo.

Pergunta: Se me permite um comentário, acho que você está sendo radical demais, não só nesta resposta, mas em quase todas as outras e não me admira que as pessoas achem que você seja um chato mesmo…

Resposta: Isso foi uma pergunta?

Pergunta: Não. Como eu disse, foi um comentário. Mas acabamos de mudar nossas funções: você está perguntando e eu, opinando.


Responses

  1. Isso pode virar uma peça, não acham? Hehehehehe.
    Até mais.

  2. Peça?
    Só se for no sentido de pregar uma peça em alguém!

    Escrevi ontem no blog do fome29, algo que complementa a idéia do “Teatro Cristão” em temas sociais no post “Justiça, o Bono sabe do que estamos falando”:

    http://fome29.blogspot.com/2009/04/justica-o-bono-sabe-do-que-estamos.html

    .el.

  3. Legal, Rahel… Aliás, o Bono tem várias entrevistas, textos e músicas que falam sobre estes assunto, vale a pena pesquisar.
    O post de semana que vem (colaboração do Marlus, estudande de teologia) vai seguir neste assunto: “Teatro e Missão”.
    Até mais.

  4. Rahel, vou te dar de aniversário um teclado, por que esse teu deve sofrer demais

  5. Após a entrevista…
    Primeira impressão do Rahel: Um chato .
    Segunda Impressão do Rahel: Muito Criativo.
    A terceira e verdadeira impressão do Rahel: Alguém que ama o Senhor Jesus, e que como eu, quer servir a este Senhor com o seu melhor.

    P.S. Eu te conheço?
    Pessoalmente não, mas acompanho suas idéias desde o início do reflete JELB. Adorei seus textos para o Atos29 e espreo que vc continue escrevendo!

  6. Meu teclado apanha mesmo, Lucas.
    rs

    Agnes,
    Cuidado, sua próxima impressão sempre pode ser:
    – Rahel, um chato – outra vez.
    rs

    .obrigado pelo retorno pessoal.
    .de coração.
    .el.

  7. Pessoal,

    Uma pessoa muito especial para mim me chamou a atenção sobre uma parte preconceituosa do meu texto. Leiam novamente:

    “Pergunta: “Fabuloso” não é uma expressão muito heterossexual, é?

    Resposta: É verdade. Mas não falei com tanta pompa assim. A ideia que estou expressando aqui está ligada com a fábula, (…)”

    Quero deixar claro que considero preconceito da minha parte o que escrevi. Por favor, não sigam o meu exemplo e me perdoem por ter escrito. Em especial, aqueles que assumiram ou não a sua condição como homossexuais e se ofenderam com o texto.

    O que escrevi, para muitos, pode parecer “normal” e, portanto, até mesmo engraçado. Mas é preconceito e revela a minha natureza de pecado e falta de amor com o nossos próximos que são homossexuais. Apesar de não ter tido a intenção de ofender eu reconheço que o que fiz foi errado e é preconceito do qual me arrependo.

    .um grande abraço a todos.
    .em Jesus.
    .Rahel.


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